-Isso é uma carcinomatose-disse o médico.
-Como? Não é um ponto negro que inflamou, um cravo, uma verruga?
-Não, é uma carcinomatose-diz o especialista após longa e cuidada observação.
E o meu mundo parou...eu paralisei. O cérebro esvaziou em segundos e apenas ecoou o som da expressão carcinomatose...o coração começou a bater lento ao ritmo da sentença: carcinomatose.
É verdade, foi-me diagnosticado um tumor maligno na face. E o mundo parou, pelo menos o meu, eu fiquei em pausa...todo o meu peso caiu, fiquei leve mas com o estigma do carcinoma comigo. Primeira reacção, após alguns momentos de paralisia, a responsável fui eu, mexi e tentei tirar um ponto negro, inflamei, degenerou...
- Não- garantiu-me o especialista-não foi responsável.
Não me recordo de sair do consultório, de chegar a casa ...continuei parada. Após algumas horas sem reacção...comecei a pesquisa veemente do significado de carcinomatose, enciclopédias, dicionários, internet, foi tudo lido e relido. Não fiquei mais descansada, carcinomatose, carcinoma ou tumor maligno, são expressões muito próximas e que se tocam. Nunca duvidei do diagnóstico, não chorei, apenas sobrevoei sobre a minha vida e aceitei que a partir daquele minuto a minha vida seria diferente. Logo agora que parecia que corria tudo tão bem, até parece cómico, mas é a realidade. Sentia-me realizada profissionalmente, adoro dar aulas e quero continuar a minha carreira docente, apesar dos obstáculos. Academicamente, estava a gostar da Pós-graduação e a sentir-me satisfeita com os resultados obtidos. Apenas, no âmbito pessoal, ainda não encontrei ninguém com quem partilhar a minha vida...porém esta situação nunca foi um drama para mim. Para mim, tragédia é um corpo estranho e maligno estar invadir o meu corpo através do meu rosto.
Esta mensagem foi escrita no domingo, 3 dias depois do diagnóstico mas apenas vou publicar após a excisão na 3ªfeira dia 20 de Maio. O resultado da análise para confirmar a malignidade virá posteriormente, após a biopsia.
Apenas desabafei com a minha mãe (o meu amparo), com a Telma (colega da Pós-Graduação), com a Palmira (colega e grande amiga) e com a Cristina (enorme amiga). A Palmira e a Cristina estão longe, estas amizades principiaram quando eu estive a dar aulas perto de Braga e continuam apesar da distância. As duas transmitem-me muita força e apoio. A Telma como batalhadora que é, está a lutar ao meu lado.