Sábado, 6 de Junho de 2009

Theatro Circo e RVCC

Regresso ao meu diário após uma ausência provocada por algum cansaço e desmotivação. Mas regresso para relatar dois bons momentos neste meu percurso pelo ensino de adultos. O primeiro ocorreu a 15 de Maio. Nesta noite conjuntamente com os formandos das minhas 4 turmas dos cursos EFA (Educação e Formação de Adultos) realizei uma interessante visita à sala de espectáculos de Braga, o Theatro Circo. Esta visita contemplou os espaços sociais, o palco, os bastidores e toda a mecânica de cena que envolve um espectáculo. Fomos acompanhados de forma eloquente e conhecedora pelo director técnico do Theatro Circo, Celso Ribeiro que ao longo de quase duas horas nos deslumbrou ao desvendar todos os espaços e recantos da sala de espectáculos.
A maioria dos formandos gostou e participou na visita. A noite terminou com um pequeno convívio entre alguns professores e alunos. Foi uma noite extremamente bem passada e muito enriquecedora. As fotografias apresentadas foram tiradas por um aluno da turma H, aqui retratada à porta do Theatro Circo conjuntamente com a professora Susana e comigo.
Ontem, dia 5 de Junho, viveu-se mais um dia de grandes emoções na escola. Pela primeira vez foram reconhecidas, validadas e certificadas competências de nível secundário a adultos que frequentaram as sessões deste processo no Centro de Novas Oportunidades da escola. O culminar do processo de demonstração de competências acontece numa sessão de júri pública, em que o adulto apresenta oralmente o portefólio que construiu. Este momento foi carregado de emotividade e vivido intensamente por todos os envolvidos, avaliador externo, equipa técnica-pedagógica (onde me incluí), pelos adultos que adquiriram o certificado de nível secundário e pelos colegas que assistiram. Momentos únicos que todos não vamos esquecer para os quais trabalhámos arduamente durante todo o ano lectivo. Senti um grande orgulho de participar

Domingo, 17 de Maio de 2009

Mais um ano de vida

Ainda há poucos dias completei mais um ano de vida…os dias vão passando e a minha vida é tão banal e rotineira, que foi apenas mais um dia. Confesso que, embora por vezes tenha essa tentação, as celebrações já não me entusiasmam e raramente acontecem. Enquanto os dias, os meses e os anos vão passando questiono-me frequentemente se sou feliz. E o que é isto da felicidade que todos perseguem? Não sou casada, neste momento, nem mesmo tenho alguém ao meu lado, não tenho filhos…com a minha idade é uma situação já pouco usual. Confesso que no campo pessoal, o meu passado é algo vazio e com pouco significado. Daí que sinta alguma falta de paixão e emoção na minha vida rotineira. Sei que não vou encontrar o tal, o príncipe, a minha cara-metade, sou completamente descrente no que diz respeito à sua existência e e à sua aparição inesperada.
Tenho, porém, alguns outros deleites que me proporcionam momentos bem primorosos e que aconchegam a minha alma ou interior… Um bom filme no cinema ou em casa…um livro que me vicia e envolve na sua narração, um mergulho no mar, um bom vinho, uma música que me faz sonhar num vasto caudal de emoções, um almoço de família acompanhado por muitas gargalhadas; uma viagem ao desconhecido, descobrir e saber um pouco mais; a alegria nos olhos dos que mais amo; um convívio com pessoas a quem posso intitular de amigos!
Estes pequenos e dispersos eventos recheiam a minha vida com algum brilho e prazer. Serão momentos de felicidade? É uma incógnita. Não me sinto amargurada e muito menos infeliz. Procuro não reflectir obstinadamente nas lacunas que existem na minha vida, mas sim aproveitar a oportunidade de desfrutar os momentos aprazíveis que me são proporcionados.

Sábado, 25 de Abril de 2009

A Páscoa no Minho

Estou em falta com o meu diário…pois há vários dias que não escrevo nada. Posso dizer que os dias de interrupção lectiva foram muito revigorantes para mim e que me sinto muito melhor.
Quando estive em Almada foi possível estar com muitos amigos com quem conversei e convivi de forma divertida. Ainda ficaram alguns em lista de espera, visto que os dias foram poucos e a Páscoa foi passada aqui em Marrancos, como é tradição familiar há muitos anos. A Páscoa no norte do país é uma festa com muito simbolismo e bastante significado para a Igreja Católica. Apesar de não ser praticante, considero que no aspecto social é uma festa bastante interessante. Resumidamente, a Páscoa assinala a ressurreição de Cristo que na cruz vai ao encontro dos crentes nas suas casas. A visita de Cristo às casas das pessoas leva-as a abrilhantar os seus lares e a convidarem os seus familiares e amigos a estarem presentes nessa hora. E como sabemos, as pessoas de Minho são hospitaleiras por natureza e sabem receber, oferecendo comida e bebida em fartura aos seus convidados. É também uma oportunidade única de convivência e de fraternidade entre familiares e amigos. Tornando-se numa festa com muita alegria, apesar de ao fim do dia estarmos cansados de comer e de correr de casa em casa.
E foi com muita energia que regressei ao trabalho no dia seguinte......

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Uma experiência de vida milionária

No início do ano lectivo quando recebi o meu horário, verifiquei que iria estar a trabalhar com o reconhecimento e validação de competências (RVC). Para perceber um pouco melhor este sistema frequentei uma acção de formação da responsabilidade da Agência Nacional para a Qualificação em parceria com a Universidade do Minho. Em traços muito gerais, o RVC significa que a experiência de vida pode ensinar-nos tanto ou ainda mais que o ensino tradicional associado à escola. De forma mais concreta, através de uma reflexão da sua história de vida, um adulto pode ser certificado num ou mais graus de ensino (6º ano básico, 9º ano básico, ou secundário). Existe um referencial onde se encontra uma listagem de competências que os adultos deverão demonstrar. Inicialmente estranha-se a ideia, será possível que existam pessoas com histórias de vida tão riquíssimas? Depois, conhecemos o grupo de pessoas com quem vamos trabalhar e lemos as suas histórias produtivas e soberbas e concluímos que em certos casos a ideia faz todo o sentido.
Na passada segunda-feira fui ao cinema e assisti ao oscarizado “Quem quer ser bilionário?” e reconheci na tela um exemplo de RVC, um menino de um bairro de lata que adquiriu uma série de conhecimentos através da sua experiência de vida… E confirmei a ideia de que os passos que damos na vida nos ensinam tanto ou mais que a escola, não é facilmente aceitável. Para o grupo de adultos que estou acompanhar a sua experiência de vida proporciona-lhe reconhecimento pessoal e escolar. No filme, a experiência de vida torna-se milionária.

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Concursos, Avaliação e TGV

Na semana passada vários acontecimentos marcaram a minha vida.
Em primeiro lugar a abertura do concurso para o quadro de professores. Havia muita expectativa em relação a este concurso, pelo menos da minha parte, desde há 3 anos que não abriam vagas para os quadros, o número de professores a reformar-se, durante este período de tempo, era bastante significativo, o Ministério anunciava a criação de milhares de vagas para contribuir para a estabilidade nas escolas. As expectativas saíram goradas quando os números foram publicados, era preciso que as vagas fossem triplicadas para que eu sonhasse poder entrar para o quadro de uma escola. Ainda pior é a consequência…se são precisas 3 vezes mais vagas e os concursos têm lugar de 4 em 4 anos…só poderei pensar na possibilidade de entrar para o quadro pelo menos daqui a 12 anos. A entrada num quadro de escola traz a estabilidade de saber que vou ter emprego e que poderei progredir na carreira. É demasiado punitivo para quem já deu tanto aos alunos e às escolas do país continuar a não ser respeitado pela entidade empregadora, o Ministério da Educação. Solução: deixar de ser docente? Não me parece que fosse feliz!
Perspectiva: continuar a ser contratada todos os anos sem saber se haverá vagas para mim, onde irei trabalhar e quanto vou ganhar.
Como contratada que sou…corro vários riscos entre eles, não poder voltar a concorrer caso não respeite a lei e com isto quero dizer que, apesar de não concordar inteiramente com a proposta de avaliação do Ministério da Educação, pedi para ser avaliada. Como disse na escola, como decidi ir à guerra resolvi ir munida com todas as armas que estão ao meu alcance, para tal solicitei ter aulas assistidas. Só assim poderei obter a classificação de Muito bom ou Excelente. Na segunda-feira à noite realizou-se a minha primeira aula assistida que, apesar de alguns percalços habituais para quem lecciona, e segundo a minha perspectiva, correu bem. Os formandos foram fantásticos e sensibilizaram-me pela forma como se disponibilizaram para me ajudar, numa atitude quase protectora. A primeira conversa com a avaliadora, após a observação, foi bastante esclarecedora e motivadora. Parece-me uma pessoa bastante profissional, com conhecimentos e experiência notáveis. Sinto-me mais confiante e nada arrependida de ter iniciado este processo.
Claro que esta aula assistida implicou muitas horas de preparação, de tensão e por oposição poucas horas de sono. Mas agora sinto um grande alívio.
E o TGV…como entra o “comboio relâmpago” na minha vida?? Que estranho! Mas é verdade…no café onde costumo ir durante o fim-de-semana tomei conhecimento através do edital da Câmara Municipal que o traçado mais provável da linha Porto-Vigo do TGV irá cruzar a aldeia de Marrancos. Fiquei triste, Marrancos é uma aldeia minhota que apesar de ser atravessada pela estrada nacional mantêm características rústicas e preciosas, como o verde dos campos, o canto dos pássaros, as pequenas colinas que enlaçam vales tornando-os acolhedores. E a paisagem que pode ser apreciada no monte da Senhora da Guia é espantosa, em dias de céu limpo é possível observar o mar. A perspectiva da aldeia ser atravessada por um comboio de alta velocidade não é muito agradável e não consigo conceber Marrancos a perder as características que tornam a tão única.

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Um raio de sol chamado Inês

O Sol voltou aos nossos dias e a Primavera espreita tentando fazer esquecer o terrível Inverno que passámos. Com o calor do Sol o meu espírito aqueceu ligeiramente e ganhei algum ânimo para enfrentar as batalhas tenebrosas que continuam a ter lugar no meu local de trabalho. Hoje, porém, para além do dia bonito algo mais me animou e emocionou. Ao passar os olhos pelo blogue de uma aluna da escola de Vale de Milhaços, verifiquei que ela tinha me dedicado algumas palavras extremamente simpáticas e principalmente que me emocionaram. A Inês escreveu e passo a citar (espero que ela não se aborreça por tal acontecer): “…por fim, mas não menos importante, a Stora Ana =) porque por momentos fez me acreditar em mim mesma e oferecia aquelas aulas que toda a turma gostava e porque até aos dias de hoje, ainda não deixei de falar com ela. Obrigada por todas as vezes que me ajudou ou tentou ajudar e pelas conversas divertidas…”.Foi um raio de sol que iluminou o meu dia e que me deu alento. Pois, para as pessoas mais importantes em todo este processo, os alunos, o meu trabalho é válido e por vezes até relevante. E são estas palavras que eu tenho de recordar nos momentos mais críticos. Eu é que devo dizer, obrigada Inês. Devo também agradecer a todos os alunos que me vão deixando mensagens simpáticas de carinho e ânimo no blogue, são todos muito amáveis e como sabem estão todos no meu coração. Os alunos são a razão do meu trabalho e esforço.
Outras inquietações assaltam-me a alma, a minha mãe adoeceu e teima em não recuperar, alguns amigos estão a passar fases, mais ou menos, preocupantes nas suas vidas, nomeadamente nos seus casamentos. É aflitivo para mim e agrava o meu sofrimento verificar que sou impotente para ajudar as pessoas que mais amo.

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Carnaval foi sinónimo de paz espírito e não de muita folia

É verdade. No fim-de-semana passado fui até Almada e ao deslocar-me até lá fiquei com a sensação que os problemas, a ansiedade e os aborrecimentos iam ficando para trás à medida que o carro ia avançando. Foram dias calmos, sem preocupações e com oportunidade para estar com algumas pessoas que me são muito queridas. Podia pensar que voltaria renascida e com mais força para enfrentar os próximos tempos…
Porém, e infelizmente não foi bem assim. Ao chegar à escola voltei a sentir o incómodo que o mau ambiente instalado provoca, revivi os maus momentos. Foi como se nunca tivesse saído dali e continuasse a mesma angústia. O que se reflecte também em termos físicos, é como se perdesse saúde cada vez que entro na escola. Sinto-me cada vez mais fragilizada. Mas também tenho esperança… Esperança que eu tenha forças suficientes para ultrapassar estes momentos ou que tudo isto não passe de desentendimentos fúteis, insignificantes mas sobretudo passageiros. E que no Verão ainda recorde com alguma saudade este ano lectivo e sobretudo que tenha aprendido e crescido enquanto docente.

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

A luta pela sobrevivência

A situação na escola agudizou-se e senti-me muito debilitada após ter sido humilhada e maltratada publicamente. Sei que foi uma situação pontual e apenas por uma colega, porém provocou muita mágoa e não consegui manter a minha força desabando em frente de outros. Continuo a pensar que ninguém merece o desprezo e a humilhação pública apenas por ter formas de trabalhar ou pensar diferentes. O desespero tomou conta de mim, fiquei doente, não conseguia dormir, comer e as lágrimas brotavam dos olhos sem razão. Como a saúde tornou-se primordial na minha vida, decidi que não poderia manter a situação e procurei as entidades competentes para saber as consequências profissionais de uma rescisão do contrato com a escola. Sim, é verdade. Eu tomei as medidas necessárias para que tal acontecesse, para mim era e é impensável trabalhar em ambiente conflituoso e com pessoas com más intenções. Era a única solução apesar das consequências negativas em termos profissionais que isso me pudesse acarretar. De que serve ter um emprego quando não temos saúde ou não somos felizes…. Lamentavelmente as consequências em termos de futuro são mais penosas do que eu imaginava. O que me levou a ponderar se o que eu construí com tanto esforço e sacrifício e que é a minha frágil carreira profissional deveria ser destruída por uma única pessoa. Simultaneamente tive o apoio e o carinho de alguns colegas que foram excepcionais e me deram alguma força. Não aprecio nomear as pessoas mas gostaria de deixar o meu obrigada muito sentido, à Catarina, à Susana, à Fernanda, à Xana, à fantástica Esmeralda e ao Carlos que mesmo de atestado médico após ter sido submetido uma cirurgia transmitiu-me palavras de apreço e de amparo. Provavelmente quem deveria ter mostrado solidariedade não o fez…mas consegui encontrar dentro de mim um alento que me fez levantar a cabeça e prosseguir. Vivo um dia de cada vez, sem alegria na minha profissão, como sempre foi meu apanágio, conto os dias, as horas, para o fim-de-semana e para o final do contrato. Cada dia na escola é um sufoco.
Como andava tão magoada e tristonha, resolvi aceitar o convite da Sueli para o seu aniversário. A Sueli é filha do dono do café onde posso estar com alguns amigos de Marrancos, já que é o nosso ponto de encontro de fim-de-semana. Segui um grupo de amigos até uma discoteca da zona onde o Filipe, principalmente, e o Fernando me fizeram companhia e ajudaram a esquecer a minha tristeza e cheguei a ouvir umas tímidas gargalhadas provenientes da minha pessoa. Entretanto fiz uma curta passagem pelas “grandiosas festividades do S. Brás” em Marrancos.
No Carnaval vou a Almada tentar encontrar forças e energia para continuar a sobreviver.